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34. E VOCÊ? JÁ FEZ ALGUÉM FELIZ HOJE?

Passamos tanto tempo embrenhados na busca da nossa arca perdida, que nos distraímos do momento atual, e das oportunidades que se apresentam, numa abundância que ofusca e nos torna cegos. Ditadura da felicidade. Um dos movimentos mais bem sucedidos de sempre, que nos empurrou por estes rápidos e cascatas intermitentes, em que o foco é sempre na pedra seguinte. A velocidade e força da corrente, distraem-nos do resto. De todo um mundo que acontece sereno e contemplativo à volta desta força, que arrasta todos nas suas águas, tornando-os iguais e solitários nesta busca irrealista. E agora, à felicidade, junta-se o propósito. "Tens que ter um propósito. Tens que deixar a tua marca. Fazer a diferença!" E não fazemos todos? Diariamente? Com ou sem consciência. Juntar-lhe um propósito e este ideal da felicidade que se procura como se de uma caça ao tesouro se tratasse, ou uma conquista dos lugares no pódio, são dos maiores disparates consentidos a que nos submetemos coletivamente. Ve...

33. FAZER O LUTO DE OBJETIVOS NÃO ALCANÇADOS

Decorreu no fim de semana do 25 de Abril o famoso MIUT  - Madeira Island Ultra Trail. A distância dos duros, são 115 km que percorrem a ilha de uma ponta à outra, com um desnível positivo acumulado de 7,100 m. Não participei neste prova. Ainda ;) Mas partilho consigo que este percurso contou com 16% de desistências. Num total de 970 atletas inscritos.  E porque escolho este exemplo para falar do tema de hoje? Porque quero honrar os atletas que desta vez não alcançaram o objetivo. Estas 155 pessoas, representam-nos a todos:  Quando nos propomos fazer um trabalho e não conseguimos concluir. Quando não somos selecionados para o emprego que levou tanto da nossa dedicação durante o processo de entrevista. Quando somos despedidos sem ter conseguido mostrar o nosso valor. Quando ao fim de largos anos, desistimos da casa dos nossos sonhos. Quando nos sentimos forçados a terminar uma relação. Quando desistimos do curso já na faculdade. Quando somos obrigados a mudar de planos porq...

32. O MUNDO ESTÁ UM CAOS, O MEU FILHO PINTOU O CABELO DE AZUL E TORNEI-ME EMPRESÁRIA!

  O mundo está um caos. Muitos diriam que já não é de hoje. Andamos de crise em crise sem tempo para recuperar para a seguinte. Aumentamos as nossas armaduras ou baixamos a guarda. Avançamos com tudo ou rendemo-nos às circunstâncias.  O meu filho pintou o cabelo de azul. Tendo em conta o estado do mundo, parece irrelevante. E de facto é. Uma experiência com consequências reversíveis. A seguir, vai pintar de outra cor. E eu já estou preparada. Depois do primeiro choque.   Este é um exemplo ridículo, mas sentido, que ilustra como funcionamos. Das coisas mais irrelevantes às de maior gravidade. Tiramos as máscaras. Habituamo-nos aos bombardeamentos.  Normalizamos o que mais tememos. Pomos as coisas em perspetiva. Hoje a pandemia perdeu importância. Deu lugar à guerra. A vida continua.  E eu tornei-me empresária.   O que é que isto tem a ver com tudo o resto? Resiliência.  Felizmente nascemos com o equipamento biológico para desenvolvê-la. Numa fase e...

31. ULTRA TRAIL DA LOUSÃ - SERRA DE EMOÇÕES

  Serra de emoções . Assim se auto designa a Serra da Lousã. Bem verdade. Das emoções mais fáceis às mais difíceis de gerir. A minha participação no Ultra Trail da Lousã, 45 Km em 9h30, +3.350m de desnível, contribuiu fortemente para a minha literacia emocional. Alimentei três medos na preparação para esta prova: 1. Medo do frio . O último aviso da organização, foi sobre a expectativa de neve acima dos 800m. Subimos aos 1.200m. 2. Medo das bolhas nos pés . A minha experiência no Ultra Trail da Serra da Freita  deixou-me com muitas mazelas e um tempo considerável e doloroso de recuperação. 3. Medo de não conseguir cumprir com as quatro barreiras horárias impostas pela organização. Tendo em conta o meu ritmo, o facto de esta ser a prova com mais desnível de sempre e o nível competitivo do evento, sabia que ía ser difícil. Os dois primeiros medos, foram os mais fáceis de ultrapassar. Depois de estar em movimento, já sei por experiência que o frio deixa de ser um problema. Portan...

30. CRENÇAS (IN)QUESTIONÁVEIS

  Porque é que continuamos a defender as ideias do passado, mesmo perante a evidência de que estamos errados? Porque é que é tão difícil mudar de rumo e viver com as pesadas consequências de decisões anteriores que já não nos servem? Viés de compromisso ou escalada de compromisso . O nome dado por Barry M. Staw a este padrão de comportamento em que perante resultados crescentemente negativos decorrentes de uma decisão, ação ou investimento passados, decidimos manter o comportamento em vez de alterar o rumo.  Infelizmente, os padrões do passado nem sempre se aplicam ao futuro. É frequente usarmos soluções do passado para resolver problemas atuais. E esta fórmula, pode tornar-se obsoleta. Se não estivermos atentos, vamos insistir e continuar a procurar evidências de algo que já não nos serve. É ainda frequente alterarmos os factos para mantermos a nossa opinião. A história da humanidade está recheada de exemplos disto. Os eventos do passado, principalmente associados a figuras ...

29. 100 ARREPENDIMENTOS

  Um dia de fim de Verão. A praia cheia de pessoas e conversas a queimar os últimos cartuchos. "Eu?! Não tenho um único arrependimento! Até te digo mais; tudo o que faço, sai logo bem à primeira tás a ver?" Não. Não estou a ver. Pensei. Como é que uma adolescente com pouco mais de uma década de idade afirma uma coisa destas? É verdade que o seu tempo de vida não lhe deu experiência suficiente para saber do que fala. Mas a convicção com que o faz, é assustadora! Que trilhos percorremos, ou que mensagens ouvimos para acreditar que devemos viver uma vida sem arrependimentos? Que círculos frequentamos e quem nos influencia, para acreditarmos neste tipo de "mantras"?! Pesquisei no google - No regrets. Desafio-o a fazer o mesmo.  Fiquei chocada com a quantidade de imagens supostamente encorajadoras, a reforçar esta ideia. E claro, completadas com outras mensagens como Não há arrependimentos na vida. Só lições aprendidas .  Corrige-me por favor e apresenta argumentos para...

28. AS 12 PASSAS, RESOLUÇÕES DE 2022 E O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

  Fascina-me a tradição das passas ao virar do ano. Subir para uma cadeira com 12 passas e mastigá-las a cada badalada. Cada uva seca representa uma nova oportunidade. Com alguma sorte, calham-nos sultanas. Assim não atrapalhamos a cadência do processo. Depois, cuidado com o pé com que se desce da cadeira, não vá o esquerdo desfazer os desejos! Pedimos. A algo ou alguém superior, ao divino, ao universo ou a nós próprios. Para alguns, o ato de pedir descansa do trabalho de fazer. Os seus desejos ficam entregues ao acaso alimentados pela crença na superstição que com alguma sorte claro, fará o resto do trabalho.  Temos ainda as resoluções do ano novo. Há quem junte as duas coisas. As mais fáceis, surgem em forma de check list: inscrever-me no ginásio, emagrecer 5 Kg, correr uma maratona, terminar o mestrado. São também estas as que mais rapidamente nos condenam ao insucesso. Não ascendemos ao nível dos nossos objetivos. Mas descemos ao nível dos nossos sistemas. Refere  Ja...

27. LIVREI-ME DA TRALHA!

Quem conheço com menos tralha, muda  frequentemente  de casa. A cada 4-5 anos, desfazem-se do que já não precisam e libertam os próximos anos para voltar a acumular. Criam espaço para mais tralha. Meia década depois, o ciclo repete-se.  Vivo na mesma casa há 15 anos. Logo, muita tralha! Há um ano atrás, a minha percepção de falta de espaço acentuou-se. Com a família a habitar o lar mais horas do que nunca, a necessidade de ar a circular aumentou de forma proporcional ao tempo que passámos entre quatro paredes.  Comprei um livro da Marie Kondo. Li-o num dia e meio. Arregacei as mangas, segui as receitas e iniciei o processo de me livrar da tralha. Larguei 80% da minha roupa. Curiosamente, perdi a vontade de comprar mais. Tornei-me bastante seletiva. Descobri que adoro gavetas vazias e espaço nos armários. Ar a circular. Fiz o mesmo com as coisas da casa. Aprendi a juntar os itens por categorias e surpreendi-me com a quantidade de rolos de fita-cola de que somos propr...

26. O QUE VÊS?

  Olha para a imagem. Provavelmente já adivinhaste a pergunta. O que vês?   Depois das respostas - vejo números, operações numéricas, fundo preto com números e símbolos a branco, blá, blá, blá... responde ao que o teu cérebro faz automaticamente. O cálculo. E agora o que vês? Ponho as mãos no fogo em como a tua resposta é - Uma conta está errada. Acertei? Ao longo dos anos, tenho usado inúmeras vezes este exercício com largas centenas de pessoas.  99,9% das vezes, a resposta é uma conta está errada . A única excepção, foi um dos participantes numa palestra que dei em Nashville, Tennessee nos EUA em 2012, na Conferência Internacional da American Re-Education Association.  No meio de dezenas de pessoas, Nicholas Long escuta com o seu perspicaz sorriso desde o momento em que olhou para a imagem. Após ouvir várias respostas, diz: " três contas estão certas ". Nicholas Long é autor de vários livros  e um dos profissionais mais influentes nas abordagens terapêuticas c...

25. CERVEJA E A NOITE DAS BRUXAS

Reza a lenda que algures na Alemanha há umas largas centenas de anos, as mulheres inventaram a cerveja. Enquanto cuidadoras do lar e fazedoras de pão, mantinham os cereais armazenados para o uso culinário. E foi a fermentação dos grãos de cevada que levou essas mulheres a pensarem no reaproveitamento deste cereal para outro fim que não o pão. O empreendedorismo foi o passo seguinte. E as mulheres começaram a vender este néctar tão apreciado e cobiçado para trazer mais uns tostões para o sustento da família. Como era necessário manter a cevada longe dos ratos, nada como encher a casa de gatos. A vassoura, colocada à porta de casa, permitia sinalizar que a bebida estava disponível para ser comprada. Encontrar as mulheres cervejeiras no mercado não era difícil: elas usavam chapéus grandes e pontiagudos para serem reconhecidas pelos clientes. E geralmente estavam diante de grandes caldeirões, onde o líquido era produzido. Os monges atentos, não perderam tempo. E sem demora, demonizaram est...

24. O ELEFANTE NA SALA

  " Vou-te contar uma coisa. É mesmo importante só tu é que podes saber. Tenho isto aqui atravessado e preciso mesmo desabafar contigo. "  E sem saberes como nem porquê, ficas com uma bomba ou uma prenda nas mãos. Os segredos ocupam mais espaço do que o pensamento. Assemelham-se a balões cheios que podem rebentar com um movimento brusco. E enquanto estão cheios, não libertam espaço para os outros processos do nosso discurso interno. Porque tudo passa a girar à volta desse frágil balão. Com o passar do tempo os segredos perdem a tonicidade, o balão murcha e o ar acaba inevitavelmente por sair. Sem o esplendor do balão cheio quando esvazia e recheado de nada quando o seu ar já se esgotou.  Nas famílias, organizações ou em qualquer grupo de pessoas que convivem regularmente, o segredo segmenta. Separa os bons dos maus, os informados dos ignorantes, os mais dos menos.  Há pessoas que adoram segredos. De tal forma que quando eles não existem, cultivam-nos. Acarinham-nos e...

23. PELA BOCA MORRE O PEIXE

  "Não posso. Não consigo. Tenho que..."  Expressões que abundam o nosso discurso interno. Para as coisas mais triviais da vida - "Tenho que colocar o lixo no contentor"  - e para as coisas mais complexas - "Não posso continuar a perder as estribeiras quando falo com o João." Quando usamos estas expressões, parece que estamos a identificar objetivos e a definir prioridades. Ter de, precisar de, necessitar de alguma coisa, sinaliza necessidades e coloca um sentido de obrigação que pode ter um efeito perverso. Quando confundimos tarefas triviais e obrigações com necessidades, podemos estar a contar mentiras a nós próprios. As necessidades são coisas sem as quais não conseguimos sobreviver - respirar, dormir, comer, conectar. E as tarefas ou ações na nossa lista, podem ser percepcionadas como obrigações, mas dificilmente são necessidades. O caminho alternativo, poderá ser pararmos de nos pressionar com coisas que achamos fundamentais para a nossa sobrevivênci...

22. MINHAS QUERIDAS E MEUS QUERIDOS; ESTA NÃO É UMA MENSAGEM DE AMOR.

  "Minha querida Maria, quantas vezes tenho que te explicar que não é assim que se fazem as coisas? Já tivemos esta conversa milhares de vezes..." Ouves esta frase. Mais vezes do que gostarias. E no hábito que se transformou numa rotina, continuas a achar que há algo que não bate certo. O que é que existe de profundamente dissonante nesta mensagem? A frase começa com minha querida - palavras de amor, apreço, colo - e o que vem a seguir, é como uma palmada no rabo. À moda antiga. Uma tareia de incompetência e incompreensão, regada de sentimentos de irritação, frustração e impaciência. Que o teu interlocutor te oferece como se de um abraço se tratasse. E tu voltas a ter 5 anos. Sentas-te no lugar da criança inexperiente e ignorante que já fez mais uma asneira.  Juntar estes dois significados na mesma frase, não só confunde a mensagem como é uma das formas mais frequentes de agressividade passiva. E provavelmente das mais impactantes negativamente não pela gravidade, mas pe...

21. VESTIR A CAMISOLA

Pensa em todas as camisolas que já usaste. No sentido figurativo. Os símbolos, cores, imagens, mensagens que vestiste ou vestes e que representam a tua ligação a alguma coisa. Pensa ainda nas crenças que são de tal forma importantes para ti que as trazes orgulhosamente ao pescoço, tais como símbolos religiosos ou ideológicos.  Quando usamos símbolos, há algo em nós que se completa. Sentimo-nos integrados e parte de alguma coisa maior do que nós próprios. Estes símbolos, marcam o sentido de pertença a um grupo, organização, equipa, crença ou ideologia. Ajudam-nos a afirmar a nossa identidade e a conectar-nos com alguma coisa de valor para nós. Permitem-nos satisfazer uma das necessidades basilares do ser humano: a pertença.  É normal pertencermos a vários grupos ao longo da vida. Em fases distintas ou em simultâneo. E há camisolas que vestimos para a vida. Porque marcam de tal forma quem somos e o que defendemos que funcionam como uma tatuagem. Os adeptos de clubes desportivos ...

20. A MENINA DOS TOTÓS

  O que descrevo, aconteceu no Trail Curto do Vimeiro, na manhã de 12 de setembro de 2021. No convívio final e após 19 Km de muita luta, ouço com um misto de orgulho e embaraço outra mulher, militar de carreira, a elogiar a minha destreza nas descidas: "A menina dos totós fez aquelas descidas de tal maneira! Parabéns, admiro-lhe a coragem!".  Senti orgulho porque no topo dos meus 49 anos, ainda me consigo sentir no pódio da bravura, coragem e destreza. Embaraço porque a regar este pódio, encontra-se um rio de medo, incerteza e insegurança. O medo durante a experiência, funcionou como impulsionador através das suas injeções de adrenalina; a incerteza, pela percepção dos riscos reais nos declives mais acentuados; insegurança, por saber que já fui capaz de mais, já caí muitas vezes (não sou assim tão boa) e há sempre alguém que eu conheço capaz de conquistar estes declives com muito mais destreza do que eu.  Isto soa-vos familiar? Minimizarmos quem somos perante a adversidad...

19. O QUE FARIAS SE FOSSES SUPER EGOÍSTA?

  Ainda hoje quando faço viagens de avião, sinto um desconforto enorme quando nas instruções de segurança nos informam que em situação de emergência e se saírem as máscaras de oxigénio, temos que colocar sempre e primeiro a nossa antes de ajudar a criança sentada ao lado. Apesar de racionalmente compreender a razão, o meu condicionamento faz-me acreditar que devemos ajudar sempre os outros primeiro. E só depois cuidar de nós.  Apesar de tudo, no caso do avião parece-me fácil compreender que só com o suporte de oxigénio fácil e rápido de colocar, estarei em condições de ajudar sem pôr em risco a vida de todos. Então porque é que no dia a dia arriscamos tanto a nossa existência para responder aos outros, acabando por colocar em causa a nossa sobrevivência e inevitavelmente a dos outros à nossa volta? Tal como no exemplo do avião? O que aconteceria se escolhêssemos não usar a máscara e privar-nos do suporte de vida mais importante naquele momento? E não é isso o que escolhemos fa...