Avançar para o conteúdo principal

27. LIVREI-ME DA TRALHA!



Quem conheço com menos tralha, muda frequentemente de casa. A cada 4-5 anos, desfazem-se do que já não precisam e libertam os próximos anos para voltar a acumular. Criam espaço para mais tralha. Meia década depois, o ciclo repete-se. 

Vivo na mesma casa há 15 anos. Logo, muita tralha!
Há um ano atrás, a minha percepção de falta de espaço acentuou-se. Com a família a habitar o lar mais horas do que nunca, a necessidade de ar a circular aumentou de forma proporcional ao tempo que passámos entre quatro paredes. 

Comprei um livro da Marie Kondo. Li-o num dia e meio. Arregacei as mangas, segui as receitas e iniciei o processo de me livrar da tralha.

Larguei 80% da minha roupa. Curiosamente, perdi a vontade de comprar mais. Tornei-me bastante seletiva. Descobri que adoro gavetas vazias e espaço nos armários. Ar a circular.
Fiz o mesmo com as coisas da casa. Aprendi a juntar os itens por categorias e surpreendi-me com a quantidade de rolos de fita-cola de que somos proprietários! Para não falar dos clips! Deixei os papéis para o fim. O que pus de lado, permitiu encher um daqueles contentores de rua para a reciclagem!

Ainda não cheguei aos livros. Ao fim de um ano, continuam a ser largas centenas e mais uns quantos. 2021 foi muito rico em novas aquisições.

Isto pode dar jeito. Reconhecem este pensamento? E entretanto, estamos cheios de coisas jeitosas estacionadas há anos e sem utilização.

O que não usamos torna-se obsoleto. Na despedida de uma colega que adoro, fui desafiada a partilhar um objeto inspirador. Escolhi um lápis de giz gigante. Tinha-o guardado há anos. Comprei-o na altura em que me fazia falta. Mas nunca o cheguei a usar. Quis poupá-lo, escolhendo alternativas. Ao fim de mais de uma década, o meu pedaço de giz gigante continua intacto. E inútil. Já não preciso dele.
A mensagem que dei à minha colega, foi para não fazer com as suas competências e capacidades o mesmo que eu fiz com o meu giz. Porque o que não usamos, deixa de ser necessário. Fica esquecido no fundo da gaveta e para todos os efeitos, é como se não existisse.

Depois deste empreendimento, quando olho para os espaços à minha volta dentro de casa, não noto uma diferença significativa. Apesar de também ter descartado algum mobiliário. Mas quando abro as gavetas ou espreito para dentro dos armários, noto uma mudança do tamanho do mundo.

Paralelamente, fiz uma limpeza interior. "Arrumar a casa" foi o catalisador de uma mudança profunda que precisava há muito. 

Tal como com as minhas gavetas, libertei-me do que já não me servia. Crenças, sentimentos, pensamentos. Criei espaço para coisas novas. Descobri novas utilizações para o meu giz gigante. Fiz escolhas de forma criteriosa e estratégica. Criei novas rotinas e deixei as gavetas abertas. Com espaço para ventilar e receber conteúdos que me sirvam na nova etapa da minha vida.

No processo, revi pessoas, práticas, hábitos, relacionamentos. O que me serve, como a roupa de que gosto e o que me deixa sem ar, como a tralha que acumulei e que fez engordar os espaços. Ao fim de algum tempo, esta tralha torna-se tóxica.
Hoje, sinto-me liberta dessa toxicidade. Vejo por entre os espaços e o ar circula. 

Quando não trocamos de casa, podemos na mesma operar grandes mudanças. As mais profundas, são as invisíveis. Aquelas que nos libertam da tralha tóxica e que atuam a um nível profundo. Porque criam espaços saudáveis onde o ar é renovado a cada dia.

Libertar-me do que não preciso, do que não me serve, ajuda-me a reconhecer o que tenho e usá-lo. Dar-lhe utilidade. E mais importante ainda, reconhecer que o que tenho é suficiente. Eu sou suficiente. 

____
Sabes que tenho uma Newsletter semanal chamada Conversas com o Medo ? Convido-te a Subscrever se achares que (re)aprender a relação com o medo é algo do teu interesse. Obrigada!

Comentários

  1. Simplesmente Transformador!
    Obrigada querida Kátia. Lembro-me da história do Giz gigante 😄

    ResponderEliminar
  2. Tenho uma incapacidade de me livrar da minha tralha... já me consegui libertar de muita coisa, mas há sempre coisas a que me agarro e não deixo ir, o tal "pode ser preciso"! Tens de "me/nos" dar umas dicas para o processo de desapego ;-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Soraia, acho que vale a pena escolher quais são as coisas a que te queres continuar a apegar. Mesmo que aparentemente não tenham utilidade. Algumas coisas deixam de cumprir a sua função de "apego" algum tempo mais tarde e depois é mais fácil. O ideal é mesmo simplificar. O livro que recomendo da Marie Kuondo é uma excelente ajuda para as técnicas de "destralhar". A outra dimensão são as razões desse apego. Reflete primeiro sobre isso. E sobre o que é realmente suficiente em relação a coisas. Quando te sentires bem com isso, será um processo fluído e até divertido ;) Boas arrumações!

      Eliminar
    2. Boa dica! Ir à raíz das razões... vou fazer esse trabalho ;-) Obrigada!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

1. GRAVITY PROBLEMS. Problems that are not problems but a circumstance of your live

  We all know what will happen if I decide to jump off a cliff. Gravity will take care of the rest. Unfortunately I will not fly. Even though human beings came up with brilliant solutions for flying, we did not grow wings in our bodies. I did a reality check with sky diving. It was not flying but the most spectacular, fastest and safer fall ever! Having a body that does not allow me to fly it is not a problem. But a circumstance of my life. We all know people that find themselves miserable about complaints related with a colleague, the spouse, the boss, being over weight, smoking addiction, choices overload, no choices or chronic diseases. Not to mention things that have happened to them in the past. It feels like there is always a complaint about something. Often times, they have done nothing to change it.  The fact is that we cannot solve a problem we are not willing to have. If it is not in our power to change it - like gravity - or if we are not willing to do anything abou...

26. O QUE VÊS?

  Olha para a imagem. Provavelmente já adivinhaste a pergunta. O que vês?   Depois das respostas - vejo números, operações numéricas, fundo preto com números e símbolos a branco, blá, blá, blá... responde ao que o teu cérebro faz automaticamente. O cálculo. E agora o que vês? Ponho as mãos no fogo em como a tua resposta é - Uma conta está errada. Acertei? Ao longo dos anos, tenho usado inúmeras vezes este exercício com largas centenas de pessoas.  99,9% das vezes, a resposta é uma conta está errada . A única excepção, foi um dos participantes numa palestra que dei em Nashville, Tennessee nos EUA em 2012, na Conferência Internacional da American Re-Education Association.  No meio de dezenas de pessoas, Nicholas Long escuta com o seu perspicaz sorriso desde o momento em que olhou para a imagem. Após ouvir várias respostas, diz: " três contas estão certas ". Nicholas Long é autor de vários livros  e um dos profissionais mais influentes nas abordagens terapêuticas c...

20. A MENINA DOS TOTÓS

  O que descrevo, aconteceu no Trail Curto do Vimeiro, na manhã de 12 de setembro de 2021. No convívio final e após 19 Km de muita luta, ouço com um misto de orgulho e embaraço outra mulher, militar de carreira, a elogiar a minha destreza nas descidas: "A menina dos totós fez aquelas descidas de tal maneira! Parabéns, admiro-lhe a coragem!".  Senti orgulho porque no topo dos meus 49 anos, ainda me consigo sentir no pódio da bravura, coragem e destreza. Embaraço porque a regar este pódio, encontra-se um rio de medo, incerteza e insegurança. O medo durante a experiência, funcionou como impulsionador através das suas injeções de adrenalina; a incerteza, pela percepção dos riscos reais nos declives mais acentuados; insegurança, por saber que já fui capaz de mais, já caí muitas vezes (não sou assim tão boa) e há sempre alguém que eu conheço capaz de conquistar estes declives com muito mais destreza do que eu.  Isto soa-vos familiar? Minimizarmos quem somos perante a adversidad...